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"Ignorem os títulos. Não há aumento do fundo..."

O "poder de fogo" da Zona Euro anunciado na sexta-feira é uma "desilusão", escreve o colunista do FT. Os 500 mil milhões de euros do fundo de resgate permanente do euro não servem o seu propósito de enfrentar possíveis crises. Por isso, o G20 deve dizer à Zona Euro que o acordo de sexta-feira é "inaceitável".

“Para toda a gente que exigia uma grande bazuca, sexta-feira foi uma desilusão”. É assim que Wolfgang Münchau começa o seu artigo de opinião no “Financial Times” sobre as insuficientes decisões tomadas na reunião de líderes europeus, no final da semana passada, em que se discutiram os fundos de resgate do euro. 

Ao longo do texto, o colunista de economia e política europeia do “Financial Times” salienta que a decisão saída do encontro doEurogrupo na sexta-feira foi uma das menos exigentes a nível financeiro. 

É por isso que diz: “Ignorem os títulos das notícias. Não há aumento do fundo de resgate para 700 mil milhões de euros”. Para explicar o porquê da sua desilusão com o novo “poder de fogo” da Zona Euro, Münchau responde a três questões por si colocadas. 

Quão grande é o poder de fogo da Zona Euro?

“A realidade é que o novo fundo da Zona Euro, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), terá 500 mil milhões de euros disponíveis para programas futuros contra a crise. Os 700 mil milhões de euros referidos são apenas uma métrica com significado para os parlamentos dos estados-membros, já que definem a sua exposição ao risco”, escreve o colunista. 

Na sexta-feira, os ministros das Finanças europeus confirmaram a dotação de 500 mil milhões de euros para o Mecanismo Europeu de Estabilidade, o instrumento de resgate financeiro permanente do euro. Até aqui, tem funcionado o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), que participa nas operações de assistência financeira a Portugal e Irlanda, com uma capacidade de 200 mil milhões já em utilização. 

 

“É óbvio que se pode sempre acrescentar números que não devem ser somados. Se contarmos os 500 mil milhões do MEE, os 200 mil milhões já existentes do FEEF, os 49 mil milhões de euros de um programa ao nível da União Europeia e ainda 53 mil milhões de euros em apoios bilaterais, alcançamos os 800 mil milhões”, avança Wolfgang Münchau.

“Mas este número não tem significado”, critica o colunista no artigo de hoje na publicação britânica. Porque o funcionamento em paralelo destes instrumentos não será eterno e só irá durar até que o FEEF deixe de funcionar: meados de 2012. Aí, estarão apenas em acção os 500 mil milhões de euros do MEE. 

Reforço será grande o suficiente?

Para o antigo correspondente do “Financial Times” em Frankfurt, “o alargamento do MEE é grande o suficiente para lidar com os problemas previsíveis óbvios e do imediato”. 

“Contudo, não tem a dimensão suficiente para lidar com eventos mais distantes e inesperados, que é, claro, o seu principal objectivo”, salienta Münchau no seu artigo. 

Esse facto, defende o jornalista, faz com que o mundo não perceba que a Europa está a fazer todos os esforços para resolver a crise. 

“A ideia do reforço do MEE era proporcionar um nível mínimo de segurança para preservar a integridade da Zona Euro na mais adversa situação. Um MEE de 500 mil milhões não o consegue fazer”, argumenta. 

O G20 deverá libertar capacidade para o FMI?

O reforço do “poder de fogo” da Zona Euro envolve, no caso dos 500 mil milhões de euros, o envolvimento dos países da região. No caso de eventuais resgates, como aconteceu com Portugal, Irlanda e Grécia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) também deverá continuar a participar. 

 

Se a entidade liderada por Christine Lagarde (na foto) aumentasse a sua participação no poder de fogo da Zona Euro de forma proporcional, “o dinheiro disponível seria de 750 milhões de euros”. 

De qualquer modo, o acordo a que o Eurogrupo chegou na sexta-feira “é demasiado pequeno”. “A verdade é que as capitais da Zona Euro, em geral, e Berlim, em particular, não estão politicamente preparadas para se comprometerem com mais fundos”, considera Münchau no artigo hoje publicado. 

Vários países de todo o mundo, nomeadamente as economias emergentes, pediram um reforço superior. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) pediu o reforço de “pelo menos um bilião de euros”. 

O entendimento que confirma os 500 mil milhões de euros ao MEE – que só chega aos 800 mil milhões através de programas já existentes – é “inaceitável”, na opinião do colunista do “Financial Times”. 

“Não é razoável que seja o resto do mundo a fazê-lo [a garantir a integridade da Zona Euro], especialmente tendo em conta o impacto negativo dos programas de austeridade na Zona Euro no resto do mundo”, escreve Münchau. Na sexta-feira, François Baroin, ministro das Finanças francês, pediu para que o FMI aumentasse a sua contribuição para o "poder de fogo" da Europa, dizendo que os países tinham feito a sua parte. 

Wolfgang Münchau indica que os países que pertencem ao G20, as 20 maiores economias do mundo, devem dizer “não” à Zona Euro, no que diz respeito ao reforço das suas contribuições para as reservas do FMI, que podem depois ser utilizadas nas assistências financeiras aos países do euro em apuros financeiros. Porque a Zona Euro não fez a sua parte. Escreve: “O G20 deve instruir a Zona Euro a voltar à mesa de negociações”. 

Abril 2, 2012, 4:28 p.m.
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